Ciúme das coisas
Martha Medeiros
Tem gente que não tolera emprestar seus maridos e esposas pra vida: eles têm que ser mantidos entre quatro paredes, sob vigilância cerrada. Ciúme é o que? Sentimento de posse. No entanto, ninguém é dono de ninguém, não compra-se um marido bem madurinho na feira, ou uma mulher 0Km na revenda autorizada. Pessoas são livres, têm desejos próprios, poder de escolha. Vão pra lá e pra cá, fazem o que bem entendem. É por isso que sentir ciúme dos outros é infrutífero e perturbador, pois não temos controle sobre as pessoas, mesmo que aquela certidão de casamento guardada na gaveta nos iluda do contrário. É mais coerente sentir ciúme de objetos inanimados, comprados com nosso suado dinheirinho, coisas que trouxemos pra casa e dali não deveriam sair jamais. Livros, por exemplo.
Se você ama ler e ama ter seus livros por perto, pergunto: não fica morrendo de ciúmes quando um amigo pede emprestado um exemplar que você adora, que está todo sublinhado, que virou uma espécie de bíblia intima? Negar o empréstimo é complicado. Então você diz sim, seu amigo leva o livro e a graça de viver acaba. Puxa, um livro não sabe se cuidar sozinho. Vai ficar lá jogado numa casa estranha, será folheado com desprezo. Seu amigo poderá deixar pingar café nas páginas. E ele vai espiar tudo o que você sublinhou e tirar conclusões precipitadas. O livro será devolvido? Mistério. Você costuma ler um livro em uma semana, e ele levará certamente um semestre. Um semestre! É uma eternidade longe do seu amor. Seu livro não pode telefonar pra você, não pode pedir pra voltar, ficará criando pó em estantes desconhecidas, esquecido, humilhado. Eu só empresto livros para quem tenho certeza de que os ama tanto quanto eu, e quando sei que serão lidos num prazo razoável. Se não há intenção de me devolverem logo, que estabeleçam um resgate: eu pago.
Cada um com seus amores. Tem gente que tem ciúme de suas roupas, ciúmes de seus discos, de suas canetas, e o caso mais clássico: de seu carro! Você empresta seu carro pra qualquer pessoa numa boa? Numa boa mesmo? Não fica achando que vão arranhar a marcha, que vão sair com o freio de mão puxado, que vão deixar fios de cabelo no assento e vão esquecer de desligar o farol quando saírem? Como tem gente evoluída nesse mundo.
Sentir ciúme de pessoas é compreensível, mas é perda de tempo: eles não são nossos. Podem nos amar, adorar, querer passar o resto da vida ao nosso lado, mas também podem querer se mandar. Afinal, eles têm pernas, são seres vivos, se quiserem ir embora, irão. Já livros, carros e roupas não sabem correr, pedir socorro, exigir respeito. Não ficam cantando “eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo”. Uma vírgula. São nossos, propriedade privada. Pode tirar essa mão boba daí.
Domingo, 20 de julho de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.